A
igreja como comunidade terapêutica
Lembro-me
de ter lido certa vez a respeito da igreja como sendo uma grande embarcação em
alto mar, que vai resgatando muitos náufragos à medida que vai cortando o
oceano. Pessoas que estavam morrendo afogadas têm assim a possibilidade de
serem resgatadas da morte trágica. Sendo assim, aquele se torna o navio dos
ex-náufragos, habitado por pessoas que tem viva na memória a lembrança do seu
salvamento, enquanto o navio continua sua missão de resgatar vidas. No entanto,
poderíamos dizer que esta é apenas parte do trabalho de resgate. Há outro
aspecto quanto aos resgatados que envolve seus ferimentos, lembranças
infelizes, hematomas, fraturas, incapacidade para viver aquela nova situação,
sofrimentos que precisam de cura...
Esta
ilustração nos faz entender que a igreja é um lugar de pessoas salvas do
pecado, mas que ainda carregam as consequências nefastas das expressões do
pecado em suas vidas. São
distorções da personalidade por causa de uma má formação infantil, hábitos
prejudiciais, patologias, sintomas psicológicos, padrões de comportamento
inadequados, e uma série de fatores que levam os indivíduos a reconhecerem que,
embora resgatados por Deus, ainda precisam de cura. Usando uma expressão
teológica: “foram salvos, mas continuam sendo salvos a cada dia”. Após traçar o perfil para
entender nossa sociedade e conhecer as características daqueles que se chegam
para nossa comunidade, precisamos pensar em como a igreja os recebe, ou então,
no tipo de ambiente que eles encontram. Via de regra, as igrejas não estão
preparadas para receber as pessoas (os ex-náufragos) como comunidade de cura e
geradora de saúde integral. Se por um lado as pessoas chegam procurando um ambiente de amor,
aceitação e cura para seus dramas, por outro lado encontramos muitas
comunidades legalistas, rigorosas e de relacionamentos superficiais, o que de
fato não ajuda em nada no estabelecimento de um ambiente propício para se
abrirem à cura de Deus. No
entanto, entre muitas vocações, uma das que a igreja possui é a de ser
comunidade terapêutica. A grande chave para entender tal vocação é a imagem
bíblica da igreja como Corpo de Cristo, cujos membros são habitados pelo
Espírito Santo e dotados de dons espirituais a fim de equipar e preparar os
crentes para o serviço e edificar o próprio Corpo. Existem ainda outras
imagens bíblicas da igreja que podem potencializar sua missão de ser um centro
de cura, libertação, crescimento e potencialização, para o cumprimento de sua
missão no mundo: A igreja como Povo de
Deus (2Co 6:16) – uma comunidade de cuidado mútuo unida por um pacto com Deus. A igreja como comunidade do Espírito Santo (At 10:44-47) – uma
comunidade redentora e curativa, através da qual o Espírito vivo pode atuar num
mundo grandemente necessitado.
A igreja
se caracteriza, portanto como uma comunidade ajudadora, que aperfeiçoa o
potencial de crescimento de seus membros, proporcionando às pessoas libertação
de muitas questões que as impedem de crescer. Ao oferecer um ambiente de comunhão, amor, serviço e
crescimento, a igreja estará dando passos no sentido de cumprir sua vocação
terapêutica. Nossas
necessidades mais profundas deveriam ser supridas na igreja, a partir de
relacionamentos saudáveis entre seus membros. Encontramos na Palavra de Deus cerca de 27 mandamentos
recíprocos (daqueles que incluem a expressão “uns aos outros” no final). Todos
eles têm a ver com o relacionamento, alguns para gerar, outros para proteger,
outros para restaurar os relacionamentos. Quando vividos no contexto da igreja
local, tais mandamentos produzirão libertação e cura para muitos. A igreja local é
responsável pela saúde integral de seus membros, e não apenas por sua vida
espiritual como muitos pensam. É equivocada aquela idéia de que se alguém tem
problemas físicos precisa ir ao médico, se problemas psicológicos tem que ir ao
psicólogo, se problemas espirituais, precisa ir à igreja. Como já vimos
anteriormente, o salvação de Deus alcança o ser humano na sua totalidade e não
apenas espiritualmente. A
atividade da igreja não pode ser reduzida a um mero exercício cognitivo de
aprendizagem intelectual, que a impede de desenvolver um programa de alcance
integral do ser humano. Para a igreja, entender a sua vocação terapêutica é ter
a consciência de ser canal da graça curadora de Deus, a qual liberta o
indivíduo para uma vida de crescimento e realizações. A igreja de Cristo é,
portanto, lugar das muitas manifestações terapêuticas e libertadoras de Deus em
relação ao ser humano. São
muitos os testemunhos que ouvimos de pessoas que foram curadas do ponto de
vista da alma, das emoções, na igreja e pela igreja; pessoas que receberam cura
ao serem amadas, aceitas, tocadas, valorizadas. Há que se dizer que a igreja, com todas as suas falhas, tem se
tornado a única opção de relacionamentos terapêuticos dentro de uma sociedade
secularizada e insensível para com as necessidades do outro. Nossa sociedade
sofre de uma grande dificuldade em estabelecer relacionamentos saudáveis e
profundos. Poderíamos
dizer que mesmo a família, para muitos, já não oferece um ambiente de ajuda e
alívio, de modo que as esperanças de muitos vão se canalizando para aquelas
igrejas que possuem uma proposta terapêutica de vida em comunidade, que de
alguma forma responda às necessidades mais básicas do ser humano. Não seria
exagero afirmar, a partir de algumas observações pessoais, que algumas pessoas
só recebem um abraço, ou um beijo, na sua comunidade local e em nenhum outro
local, sendo que ali tais pessoas se sentem valorizadas e por isso ali
permanecem. Os
estudos a respeito da relação membro-igreja nos tem mostrado que os membros
permanecem numa determinada igreja local mais pelos relacionamentos e menos
pela confissão doutrinária, ainda que esta última tenha a sua importância na
vida de qualquer cristão. Em função disso, as igrejas que conseguirem
desenvolver um ambiente que gere relacionamentos profundos e saudáveis estarão
à frente para se tornarem relevantes nesse mundo pós-moderno. A igreja, na sua função
terapêutica, precisa desenvolver várias qualidades básicas. Algumas para nossa
reflexão:
(1ª) Aceitação – a aceitação é
necessidade básica no desenvolvimento da personalidade de qualquer ser humano.
É à base do indivíduo.
A argumentação bíblica para esta
atitude é o fato de que fomos aceitos por Deus em Sua família, através de
Cristo. Se na família tal aceitação é importante, na igreja ela possibilita
vida e alegria.
(2ª) Confissão – trata-se de uma
prática pouco desenvolvida na igreja. “A confissão a Deus encarnado no ouvido
atento e perdoador do irmão é um recurso poderoso para promover saúde nos
membros da igreja”.
O próprio Davi descreveu as consequências
físicas e emocionais de se carregar pecados sem jamais confessá-los (Salmo 32).
A verdadeira confissão gera crescimento e saúde no Corpo de Cristo.
(3ª) Perdão – a prática do perdão
traz saúde ao indivíduo culpado, senso de libertação e renovação da própria
vida. Livra-nos da culpa que paralisa e impede o crescimento para o qual fomos
criados.
Uma igreja que pratica o perdão
ensina a seus membros sobre a graça de Deus de uma forma mais eficaz.
Proporciona ao outro um novo recomeço e a possibilidade de tentar mais uma vez.
A igreja é o lugar dos recomeços!
(4ª) Oração intercessora –
orar/interceder por alguém traz saúde a quem quer que seja. Demonstra interesse
e valorização, faz-nos aproximar do outro, movidos pela sensibilidade da dor e
do sofrimento que alcança pessoas a quem amamos e que estão à nossa volta.
(5ª) Contato físico – há uma
necessidade de toque físico em cada um de nós. Toque que gera aceitação,
manifesta carinho e cuidado. É o toque curador do abraço, do aperto de mão, do
braço sobre o ombro do irmão.
Há um mistério no contato físico que
pode consolar, encorajar, tirar a dor e até mesmo curar.
(6ª) Louvor – O ato de louvor
expressa atitude contrária à enfermidade. No louvor não há medo, nem
recriminação, nem tristeza.
“O louvor provém de um coração alegre
e de um povo agradecido”.
A ordem bíblica é bem clara: “Cantai
ao Senhor um cântico novo” (Salmo 96:1).
“Bom é render graças ao Senhor e
cantar louvores ao teu nome, ó altíssimo” (Salmo 92:1).
“Uma igreja que louva reflete
maturidade e saúde e gera saúde e maturidade entre seus membros.”
“Está alguém alegre? Cante louvores.”
(Tiago 5:13b).
(7ª) Outras expressões de serviço – à
medida que como membros ajudamos uns aos outros nas mais diversas tarefas,
mesmo naquelas pequenas, domésticas, suprimos expectativas daqueles que estão à
nossa volta e assim geramos saúde para nós, para o outro e na comunidade local.
Quem
adentra nessa comunidade necessitando da cura interior, eu lhe digo: De fato
irá encontrar se estiver disposto a adorar somente e unicamente ao Deus
Tri-uno, a perdoar setenta vezes sete, não como um quantitativo matemático,
mas, um qualitativo de vida, e, estar pronto para negar-se a si mesmo tomar a
sua cruz do dia a dia e seguir o Mestre servindo ao próximo como a ti mesmo.
Autor:
Pastor e Teólogo. Jorge Henrique R de Araujo.