Cazuza já afirmava, “ideologia, eu quero uma pra viver!”. Os ideais de uma pessoa são as
válvulas condutoras de sua existência. Ter em quê acreditar, seguir e confiar é
tão imprescindível quanto comer ou tomar água. A
cultura pode ser contaminada por modos perversos que a desviam do processo de
humanização. Estes são a alienação e a ideologia, cujos riscos refletem nas
definições dos objetivos de uma educação focada na emancipação humana.
O trabalho entendido no amplo sentido de atividade prática e
teórica, é uma condição para a instauração do mundo da cultura, mas, se as
relações de poder não fazem democráticas, persiste a cultura da dominação, com
nítidos prejuízos para a equitativa repartição dos bens, sociais, sobretudo a
educação.
Alienação
é um processo pelo qual uma pessoa vive para o outro e para a realidade do
outro. Perde-se a consciência de si mesmo e da sua realidade e vive-se em
função do outro e de outra realidade.. O homem não se conhece como agente da
história. Ele desconhece que é ele mesmo que cria a sua realidade, sociedade,
política e divisão social do trabalho. Esse desconhecimento chama-se alienação
social. Marx define a alienação econômica como exploração do trabalho. O
trabalhador produz, mas não recebe o valor merecido pela sua produção. O
trabalhador é, dessa forma, desumanizado e transformado na condição de produto.
O homem se aliena da sua humanidade quando é transformado pelas relações de
produção em mercadoria.
O
conceito de Ideologia possui várias acepções, no entanto, dentro do campo da
sociologia, mais estritamente com Karl Marx, assumiu um significado com
características diferentes daquilo que era o sentido etimológico da palavra. O
termo ideologia foi criado por Destutt de Tracy no tempo da Revolução
Francesa, com o significado de ciência das idéias, isto é, ciência que estuda a
gênese das idéias. Posteriormente passou a significar também o conjunto de
idéias de uma época, tanto como “opinião geral”, quanto no sentido de
elaboração teórica de alguns pensadores.
O
senso comum compreende a ideologia nesta segunda acepção, isto é, como a idéia
de um partido político, de um grupo, de uma instituição etc. Desconhecem a
concepção marxista que envolve uma questão muito mais ampla. Não entende toda a
problemática que envolve a ideologia, o que faz com que se tornem alienados
socialmente. Uma vez que, a ideologia é o instrumento mais eficaz na propagação
da alienação.
A
definição da ideologia como um instrumento desenvolvido pela classe dominante
para manter ou até mesmo justificar seus objetivos é algo novo e pouco
cogitado. A ideologia é usada para conservar um sistema injusto como o
capitalismo, pois através dela as desigualdades entre as classes e pessoas são
justificadas de maneira que, isto seja aceito socialmente como algo normal e
lógico.
Marx
realiza a caracterização da ideologia no livro “Ideologia Alemã.” Nesta
obra, o conceito de ideologia aparece como equivalente a ilusão, falsa
consciência, alienação etc. Marx e Engels determinam o momento do surgimento da
ideologia no instante em que a divisão social do trabalho separa trabalho
material e trabalho intelectual. Esta aparente divisão de tarefas engendra a
desigualdade social e a exploração.
A
ideologia desenvolve a alienação social e histórica, as pessoas acham normal
que uns tenham muito e outros nada. Dizem que fulano é mais trabalhador por
isso tem mais e o outro é preguiçoso por isso não possui bens. O senso comum
alienado não é capaz de perceber que todos os trabalhadores estão condicionados
pelo sistema da divisão social do trabalho. Que eles são explorados pelos
proprietários que possuem os meios de produção e que a mão de obra humana é
explorada ao máximo pelos proprietários, pois é a mais valia (trabalho não
pago) que gera o capital.
A
massa dos assalariados dispõe exclusivamente de sua força de trabalho, que é
vendida como mercadoria para o proprietário do capital. Ocultando dessa forma,
que os trabalhadores não são senhores de seu trabalho, e que, suas chances de
melhorar não dependem deles, mas de quem possui os meios de produção. A
ideologia faz os homens acreditarem que não são iguais por natureza e pelas
condições sociais, mas que são iguais perante a lei e o Estado, escondendo que
a lei foi feita pela classe dominante.
Conclui-se
então que a ideologia é um instrumento sutil de dominação. Ela é usada pelos
mais poderosos para exercer sua supremacia, fazendo com que a exploração não
seja percebida pelos dominados. Alienação e ideologia andam de “mãos dadas”; o
que torna possível a alienação é a ideologia. A ideologia simplesmente
transforma em “verdades” a visão errônea e invertida do funcionamento da
sociedade que as maiorias dominadas costumam ter.
Também
é papel da ideologia impedir que as massas alienadas se organizem em alguma
ação revolucionária, fazendo com que aquilo que foi legalizado e estabelecido
apareça para os homens como legítimo e incontestável.
Os
estudos na área da sociologia possibilitam a compreensão de como se dá o
funcionamento da sociedade e contribui amplamente para a formação da
consciência crítica.
Autor: Pastor e Teólogo Jorge Henrique R de Araujo