terça-feira, 8 de novembro de 2016

“Ideologia, eu quero uma pra viver!”

Cazuza já afirmava, “ideologia, eu quero uma pra viver!”. Os ideais de uma pessoa são as válvulas condutoras de sua existência. Ter em quê acreditar, seguir e confiar é tão imprescindível quanto comer ou tomar água. A cultura pode ser contaminada por modos perversos que a desviam do processo de humanização. Estes são a alienação e a ideologia, cujos riscos refletem nas definições dos objetivos de uma educação focada na emancipação humana.
O trabalho entendido no amplo sentido de atividade prática e teórica, é uma condição para a instauração do mundo da cultura, mas, se as relações de poder não fazem democráticas, persiste a cultura da dominação, com nítidos prejuízos para a equitativa repartição dos bens, sociais, sobretudo a educação.
Alienação é um processo pelo qual uma pessoa vive para o outro e para a realidade do outro. Perde-se a consciência de si mesmo e da sua realidade e vive-se em função do outro e de outra realidade.. O homem não se conhece como agente da história. Ele desconhece que é ele mesmo que cria a sua realidade, sociedade, política e divisão social do trabalho. Esse desconhecimento chama-se alienação social. Marx define a alienação econômica como exploração do trabalho. O trabalhador produz, mas não recebe o valor merecido pela sua produção. O trabalhador é, dessa forma, desumanizado e transformado na condição de produto. O homem se aliena da sua humanidade quando é transformado pelas relações de produção em mercadoria.
O conceito de Ideologia possui várias acepções, no entanto, dentro do campo da sociologia, mais estritamente com Karl Marx, assumiu um significado com características diferentes daquilo que era o sentido etimológico da palavra. O termo ideologia foi criado por Destutt de Tracy no tempo da Revolução Francesa, com o significado de ciência das idéias, isto é, ciência que estuda a gênese das idéias. Posteriormente passou a significar também o conjunto de idéias de uma época, tanto como “opinião geral”, quanto no sentido de elaboração teórica de alguns pensadores.
O senso comum compreende a ideologia nesta segunda acepção, isto é, como a idéia de um partido político, de um grupo, de uma instituição etc. Desconhecem a concepção marxista que envolve uma questão muito mais ampla. Não entende toda a problemática que envolve a ideologia, o que faz com que se tornem alienados socialmente. Uma vez que, a ideologia é o instrumento mais eficaz na propagação da alienação.
A definição da ideologia como um instrumento desenvolvido pela classe dominante para manter ou até mesmo justificar seus objetivos é algo novo e pouco cogitado. A ideologia é usada para conservar um sistema injusto como o capitalismo, pois através dela as desigualdades entre as classes e pessoas são justificadas de maneira que, isto seja aceito socialmente como algo normal e lógico.
Marx realiza a caracterização da ideologia no livro “Ideologia Alemã.” Nesta obra, o conceito de ideologia aparece como equivalente a ilusão, falsa consciência, alienação etc. Marx e Engels determinam o momento do surgimento da ideologia no instante em que a divisão social do trabalho separa trabalho material e trabalho intelectual. Esta aparente divisão de tarefas engendra a desigualdade social e a exploração.
A ideologia desenvolve a alienação social e histórica, as pessoas acham normal que uns tenham muito e outros nada. Dizem que fulano é mais trabalhador por isso tem mais e o outro é preguiçoso por isso não possui bens. O senso comum alienado não é capaz de perceber que todos os trabalhadores estão condicionados pelo sistema da divisão social do trabalho. Que eles são explorados pelos proprietários que possuem os meios de produção e que a mão de obra humana é explorada ao máximo pelos proprietários, pois é a mais valia (trabalho não pago) que gera o capital.
A massa dos assalariados dispõe exclusivamente de sua força de trabalho, que é vendida como mercadoria para o proprietário do capital. Ocultando dessa forma, que os trabalhadores não são senhores de seu trabalho, e que, suas chances de melhorar não dependem deles, mas de quem possui os meios de produção. A ideologia faz os homens acreditarem que não são iguais por natureza e pelas condições sociais, mas que são iguais perante a lei e o Estado, escondendo que a lei foi feita pela classe dominante.
Conclui-se então que a ideologia é um instrumento sutil de dominação. Ela é usada pelos mais poderosos para exercer sua supremacia, fazendo com que a exploração não seja percebida pelos dominados. Alienação e ideologia andam de “mãos dadas”; o que torna possível a alienação é a ideologia. A ideologia simplesmente transforma em “verdades” a visão errônea e invertida do funcionamento da sociedade que as maiorias dominadas costumam ter.
Também é papel da ideologia impedir que as massas alienadas se organizem em alguma ação revolucionária, fazendo com que aquilo que foi legalizado e estabelecido apareça para os homens como legítimo e incontestável.
Os estudos na área da sociologia possibilitam a compreensão de como se dá o funcionamento da sociedade e contribui amplamente para a formação da consciência crítica.
Autor: Pastor e Teólogo Jorge Henrique R de Araujo